Quanto mais religioso o país, mais pobre ele tende a ser?

 O texto de Hélio Schwartsman apresenta a visão da secularização, que sugere que o desenvolvimento econômico naturalmente empurra a religião para a esfera privada ou para o desaparecimento.

Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de “Pensando Bem…”

Resumo do Texto na Folha de São Paulo

O artigo argumenta do jornalista da folha diz que existe uma correlação negativa entre religiosidade e riqueza nacional: quanto mais fiel é um país, geralmente mais pobre ele é (com a exceção dos EUA). O autor sugere que:

A pobreza pode ser o motor da religião, pois em ambientes de insegurança, as pessoas buscam conforto na fé. Benefícios individuais porque, dentro da pobreza, ser religioso ajuda o indivíduo (redes de apoio, hábitos saudáveis), mas isso não se traduziria necessariamente em riqueza nacional imediata. E, por fim, o paradoxo protestante, países que enriqueceram via ética protestante foram os primeiros a abandonar a religião após atingirem o bem-estar e a instrução.

Refutando a tese: A Religião como Motor de Capital e Ordem

Embora a correlação citada pelo texto exista em termos estatísticos brutos hoje, a literatura econômica moderna e histórica mostra que a religião frequentemente foi a causa da prosperidade, e não um sintoma da pobreza.

O sociólogo Max Weber argumentou que o protestantismo (especialmente o calvinismo) mudou a visão do trabalho: de uma “punição” para uma “vocação” (Beruf). Estudos de Becker e Woessmann (2009) mostram que cidades protestantes na Prússia do século XIX eram mais ricas que as católicas, mas o motivo principal era a alfabetização. Para ler a Bíblia, todos precisavam aprender a ler, o que gerou um capital humano sem precedentes que impulsionou a Revolução Industrial.

Os economistas Robert Barro e Rachel McCleary realizaram pesquisas extensas em dezenas de países e descobriram algo crucial: a crença em conceitos religiosos (como céu e inferno) está positivamente correlacionada com o crescimento econômico.

Como mecanismo, essas crenças incentivam comportamentos como honestidade, confiança, ética de trabalho e parcimônia, que reduzem os custos de transação no mercado. O que reduz o crescimento, segundo eles, é o peso da “instituição” (igreja estatal ou excesso de rituais), mas não a fé em si.

Teoria da Segurança Existencial vs. Capital Social

Enquanto a teoria de Inglehart e Welzel (Mapa Cultural Global) diz que a segurança financeira gera secularização, outros autores apontam que a religião constrói o Capital Social. Em países em desenvolvimento, as igrejas frequentemente substituem o Estado na oferta de redes de segurança, educação e disciplina financeira. O crescimento das igrejas evangélicas na América Latina e África é visto por pesquisadores como Peter Berger como uma “revolução cultural” que cria uma nova classe média focada em empreendedorismo e poupança.

O Exemplo dos “Judeus e o Capitalismo”

Jerry Muller, em The Mind and the Market, destaca como grupos religiosos minoritários (como judeus na Europa ou quacres na Inglaterra) foram motores econômicos justamente por causa de suas redes de confiança religiosa, que permitiam o crédito e o comércio de longa distância quando as instituições estatais eram fracas.

Comparativo: Riqueza Nacional vs. Importância da Religião

Para ilustrar a complexidade dessa relação, a tabela abaixo cruza dados de Riqueza (PIB per capita PPP) com o Índice de Religiosidade (percentual da população que afirma que a religião é muito importante em sua vida), baseando-se em projeções para 2024/2025 e dados do Pew Research Center e Banco Mundial.

A tabela foi organizada para mostrar os três grupos principais: os "Secularizados Ricos", as "Exceções de Alta Fé e Riqueza" e os "Países em Desenvolvimento com Alta Fé".

PaísPIB per capita (PPP)Importância da Religião (%)Religião PredominanteObservação Sociológica
Etiópia~$3.70098%Cristã Ortodoxa/IslãModelo de sobrevivência/segurança existencial.
Indonésia~$16.80093%IslãCrescimento econômico com manutenção da fé.
Brasil~$20.30072%Cristã (Católica/Evangélica)Transição religiosa e ascensão da Classe C.
Estados Unidos~$81.00053%Cristã (Protestante/Católica)A maior exceção: Alta riqueza e alta fé.
Coreia do Sul~$56.00044%Budismo/Cristianismo/NenhumModernização rápida com forte ética protestante.
Alemanha~$66.00012%Cristã (Secularizada)Berço do protestantismo, hoje altamente secular.
Japão~$52.00010%Xintoísmo/BudismoAlta riqueza com religiosidade ritualística baixa.
Noruega~$82.0009%Cristã (Luterana/Secular)O auge do modelo de bem-estar social secular.

Análise dos Dados

A tabela e os gráficos de dispersão mundiais geralmente revelam três pontos que desafiam a interpretação simplista do texto que você enviou originalmente:

  1. O "Excepcionalismo Americano": Se a riqueza causasse mecanicamente o fim da religião, os EUA deveriam ser tão seculares quanto a Noruega. O fato de serem um dos países mais ricos e manterem níveis de fé de país em desenvolvimento sugere que a religiosidade pode coexistir (e até impulsionar) o capitalismo avançado.

  2. A Curva de Desenvolvimento (Coreia e Brasil): Países que saíram da pobreza extrema recentemente não abandonaram a religião; eles mudaram a forma da religião. Na Coreia do Sul e no Brasil, a transição para o sucesso econômico foi acompanhada por um aumento na eficácia das redes religiosas de ajuda mútua.

  3. Segurança Existencial: A literatura (Inglehart & Welzel) sugere que o que afasta a religião não é o "dinheiro" em si, mas a segurança. Países onde o Estado provê saúde, educação e aposentadoria (como os Nórdicos) tendem a ver a religião declinar porque a "função social" da igreja (seguro social) perde o sentido prático.

O Caso dos Países Protestantes

O texto menciona que os protestantes foram os primeiros a se afastar. Historicamente, isso ocorre porque o protestantismo incentivou a alfabetização e a ciência (para ler a Bíblia e entender a criação). Ao fazer isso, ele criou as ferramentas (educação e razão) que, ironicamente, permitiram que as gerações seguintes questionassem as instituições religiosas. É o que Max Weber chamou de "Desencantamento do Mundo".


Cronologia desse processo: da "Igreja como motor econômico" até a "Secularização como fruto da abundância".

Idade Média: Os Mosteiros como as Primeiras Corporações

Antes do capitalismo moderno, a Europa era um território fragmentado. Foram as ordens monásticas (especialmente os Cistercienses) que iniciaram o enriquecimento técnico do continente:

  • Inovação Técnica: Os mosteiros foram centros de engenharia hidráulica, metalurgia e agricultura sistemática. Eles transformaram pântanos em terras aráveis.

  • Acúmulo de Capital: Ao contrário do senhor feudal, o monge tinha uma vida austera. O excedente produzido não era gasto em luxo, mas reinvestido na própria abadia, criando o conceito de acumulação de capital.

A Reforma Protestante e o Capital Humano

Aqui ocorre a grande virada que o seu texto original mencionou de forma incompleta. A revolução econômica não veio "apesar" da religião, mas através dela.

  • O "Efeito Bíblia": Para Lutero e Calvino, todo fiel deveria ler a Bíblia. Isso gerou uma pressão inédita pela alfabetização universal.

  • Resultados Empíricos: Estudos de Becker e Woessmann mostram que em 1800, a alfabetização em regiões protestantes era quase o dobro das católicas. Esse "Capital Humano" foi o combustível necessário para a Revolução Industrial.

  • Vocação (Beruf): O trabalho deixou de ser um "fardo" para ser uma "vocação divina". O sucesso nos negócios passou a ser visto como um sinal de disciplina e eleição.

O Enriquecimento: O Século XIX

A Europa chegou ao seu auge de poder global sendo profundamente religiosa. No século XIX:

  • As metrópoles europeias (Londres, Berlim, Genebra) eram centros de fervor religioso e, simultaneamente, capitais do capital global.

  • A rede de confiança baseada na fé permitia o crédito de longa distância. Se você era um quacre ou calvinista, sua palavra valia mais que um contrato estatal.

A Transição: Por que a Riqueza gerou a Secularização?

A tese sociológica mais aceita (Inglehart e Norris) não é que a "ciência provou que Deus não existe", mas a Teoria da Segurança Existencial:

  1. O Estado Providência: Quando a Europa ficou rica, ela criou sistemas de saúde, pensões e segurança social.

  2. Substituição: O Estado passou a oferecer a segurança que antes era exclusividade da comunidade religiosa (igreja).

  3. Desnecessidade Prática: Com a vida "garantida" do berço ao túmulo, o custo de oportunidade de frequentar a igreja aumentou, e a urgência metafísica diminuiu.

Historicamente, pode-se dizer que o cristianismo foi a escada que a Europa usou para subir ao topo da riqueza mundial. Uma vez no topo, os europeus "chutaram a escada" (tornaram-se seculares/ateus), acreditando que a riqueza era fruto apenas da sua razão técnica, esquecendo que as instituições que sustentam essa razão (universidades, ética de trabalho, confiança) foram gestadas no ambiente religioso. A pergunta que economistas fazem hoje é se a Europa consegue manter sua riqueza sem os valores que a criaram, especialmente diante do inverno demográfico (falta de filhos), que é um efeito colateral direto da secularização.

BRASIL…

O caso brasileiro é um dos laboratórios mais fascinantes do mundo para desafiar a Teoria da Secularização. Enquanto a tese do seu texto sugere que a religião retrocede com o progresso, o Brasil mostra um fenômeno de “modernização religiosa”: o crescimento econômico de uma nova classe média (a “Classe C”) ocorreu simultaneamente à explosão evangélica.

O Censo 2022 e o “Upgrade” Educacional

Ao contrário da ideia de que a religião atrai apenas os “sem instrução”, os dados do IBGE (Censo 2022) mostram uma realidade mais matizada:

Entre os evangélicos, a maior proporção de fiéis já se encontra no nível médio completo e superior incompleto (35,2%), superando numericamente o grupo sem instrução ou com fundamental incompleto (34,9%). O crescimento religioso não está mais restrito às franjas de extrema pobreza; ele é o motor cultural da classe trabalhadora que busca ascensão.

A “Ética Evangélica” como Capital Social nas Periferias

O cientista político Victor Araújo (USP/Zurique), em sua tese premiada “A religião distrai os pobres?”, e o sociólogo Robert Woodberry oferecem evidências que contradizem a visão de “alienação”: Em locais onde o Estado é ausente, a igreja funciona como uma incubadora de microempreendedorismo. O “capital social” (confiança entre membros) reduz os custos de transação para pequenos negócios locais.

A igreja oferece o que o economista Anthony Gill chama de “bens de clube”: proteção contra vícios (álcool/drogas), redes de emprego e auxílio financeiro imediato. Isso gera uma estabilidade econômica individual que permite a acumulação de renda que o Estado não consegue garantir.

O Impacto no Consumo e no PIB

De acordo com estudos da Artplan e Meio & Mensagem (2025), o público evangélico não é apenas um “bloco de votos”, mas um bloco de consumo robusto.

Estima-se que os evangélicos movimentem bilhões anualmente em setores de nicho (turismo religioso, editoras, música), mas também no varejo geral, devido à ênfase na “prosperidade” e na disciplina financeira. Diferente do catolicismo tradicional que, por vezes, via o lucro com desconfiança, a ética neopentecostal brasileira sacraliza o sucesso material. Isso alinha a fé com a lógica capitalista de investimento e poupança.

Países Ricos x Religiosidade

Para refutar a tese de que “países ricos são necessariamente menos religiosos”, a literatura aponta o Excepcionalismo Americano e os Tigres Asiáticos:

  • EUA: O país mais rico do mundo mantém níveis de religiosidade muito superiores à Europa, sugerindo que a secularização é um fenômeno europeu, não uma regra global.
  • Coreia do Sul: O país passou por um “milagre econômico” acelerado no século XX ao mesmo tempo em que via uma explosão do protestantismo (de quase 0% para cerca de 30%).

Da “Resignação” à “Prosperidade”

No catolicismo tradicional e nas vertentes protestantes históricas, havia uma valorização da humildade e, por vezes, uma desconfiança em relação ao acúmulo de riqueza. A ascensão das igrejas neopentecostais inverteu essa lógica através da Teologia da Prosperidade.

A prosperidade financeira é vista como uma evidência do favor divino. Isso remove a culpa do enriquecimento e incentiva a busca ativa por melhores rendas.

O fiel é incentivado a abrir o próprio negócio (“ser cabeça e não cauda”). Dados do SEBRAE e de consultorias como a Data Favela mostram que o empreendedorismo por necessidade muitas vezes se estabiliza através do suporte ético e da rede de contatos da igreja.

A Igreja como “Escola de Gestão”

Para muitos brasileiros, o primeiro contato formal com conceitos de orçamento doméstico e gestão de dívidas ocorre dentro do templo. O dízimo funciona como Planejamento, pois o compromisso de separar 10% da renda bruta exige, paradoxalmente, uma disciplina financeira rigorosa. Para dizimar, o fiel precisa saber quanto ganha e quanto gasta.

Grandes denominações (como a Universal ou a Hillsong) oferecem palestras de “sucesso financeiro” que ensinam desde como sair do rotativo do cartão de crédito até noções básicas de marketing pessoal. É uma alfabetização financeira de base que o Estado muitas vezes falha em prover.

O Mercado de Investimentos e o Perfil de Risco

O investidor fiel tem características psicográficas distintas que o mercado financeiro (B3 e corretoras) começou a observar. Há uma tendência de evitar investimentos em setores de fumo, álcool ou jogos de azar (filtros ESG com viés religioso). O foco costuma ser em ativos tangíveis ou na própria formação (cursos técnicos e universitários), visando o aumento da capacidade produtiva.

O mercado de fintechs tem focado nesse público, sabendo que a taxa de inadimplência tende a ser menor em comunidades onde a “honra ao nome” é um valor moral e social reforçado semanalmente.

Correlação não é Causalidade!!!

Dizer que “países pobres são religiosos” é uma foto do momento, mas ignorar que as raízes da riqueza ocidental são religiosas é um erro histórico. A religiosidade tende a diminuir quando o Estado se torna o “provedor universal” (como nos países nórdicos), mas o próprio sucesso desses Estados dependeu de valores de confiança e trabalho gestados séculos antes em ambientes profundamente religiosos.

O argumento de que os países “se afastaram” da religião após ficarem ricos ignora que esses mesmos países estão enfrentando hoje crises de capital social, solidão e queda demográfica, o que tem levado economistas a repensarem se a secularização total é sustentável a longo prazo.



PARA APROFUNDAR


1. O Marco Sociológico: Teologia da Prosperidade e Capitalismo

  • MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 2014 (5ª ed.).

    Comentário: Esta é a obra fundamental para entender a ruptura com o ascetismo clássico (o "sofrer aqui para ganhar no céu"). Mariano explica como o neopentecostalismo brasileiro "sacralizou" o mercado e o consumo, transformando o sucesso financeiro em evidência de salvação.

  • CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, templo e mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Vozes, 1997.

    Comentário: Analisa a Igreja Universal não apenas como instituição religiosa, mas como uma estrutura empresarial eficiente que utiliza técnicas de marketing para expandir sua "fatia de mercado".

2. Evidências Econômicas e Dados Empíricos

  • BERNARDELLI, L. V.; MICHELLON, E. "O impacto da religião no crescimento econômico: uma análise empírica para o Brasil (1991-2010)". Estudos Econômicos (USP), 2018.

    Comentário: Este artigo é essencial para refutar a tese de que a religião atrasa o país. Os autores demonstram, via modelos econométricos, que o crescimento das igrejas evangélicas (tradicionais e pentecostais) teve um impacto positivo no aumento da renda per capita e na acumulação de capital humano no Brasil.

  • ARAÚJO, Victor. A Religião Distrai os Pobres? Pentecostalismo e Voto Redistributivo no Brasil. Tese (Doutorado em Ciência Política) - USP, 2019/2021.

    Comentário: Premiada pela CAPES, esta pesquisa desafia a ideia de que o fiel é "alienado". Araújo mostra que o voto religioso é uma escolha baseada em redes de proteção social que a igreja oferece e o Estado não, funcionando como um mecanismo racional de sobrevivência econômica.

3. Empreendedorismo e Gestão

  • CORRÊA, Victor Silva et al. "Empreendedorismo religioso: quando Weber se associa a Granovetter". Revista de Ciências da Administração, 2016.

    Comentário: Faz a ponte entre a ética do trabalho de Max Weber e a teoria das redes sociais (Mark Granovetter). Explica como o "pastor-empreendedor" utiliza a confiança da congregação para criar ecossistemas de negócios resilientes.

  • SERAFIM, Maurício C. "Religião e o 'Espírito' Empreendedor". ANPAD, 2024 (Artigo de revisão/conferência).

    Comentário: Uma análise contemporânea sobre como organizações religiosas (incluindo movimentos católicos como a Economia de Comunhão) estão moldando o perfil do novo empresariado brasileiro.

4. Fontes Primárias e Dados de Transição (2022-2026)

  • IBGE. Censo Demográfico 2022: Religiões (Resultados da Amostra). Publicado em 2024/2025.

    Destaque: Os dados mostram que os evangélicos já somam mais de 26,9% da população, com crescimento acelerado em regiões de fronteira econômica (Norte e Centro-Oeste). O grupo de "Sem Religião" (9,3%) cresce mais entre jovens urbanos, indicando uma nova clivagem de classe e consumo.

 

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